(mordidas mansas)














(por vezes bravas)



morder
 
os legumes
e o cacau,
à beira-mar,
em dias
e dias
de enganos;
afundando
ao vento
cogumelos
duns e doutros;
sem nada
de nada
ao colo
e recortando
fotos
de cães.

sacudindo
dias
de conversas
no camarote.

comendo
causas,
políticas
e erros
de um lado
e do outro;
fixando
de repente
o que tem
a praia:
letras
e girafas.



morder
o mundo

 
todos os minutos
todas as horas
todas as semanas
em francês
e em inglês



morder
os sons

 
em 5 minutos
debaixo de água
conhecendo
lendo
sentindo
e comprando



morder
as imagens

 
pessoais
amadoras
profissionais
em movimento
brevemente
aqui



morder
as palavras

 
sentidas
no escuro
em busca
de tempo



morder
o passado

 
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quinta-feira, agosto 19, 2004


Tiveram o primeiro encontro num parque de estacionamento.
Ele chamava-se Asdrúbal Satorninho
(por nenhuma razão em especial)
e esse nome fez com que entre os 10 e os 16 anos fosse gozado pelos colegas na escola, o que naturalmente contribuiu para o seu jeito tímido e reservado e para o tique de chutar repetidamente o polegar com o dedo mindinho de cada vez que um estranho lhe dirigia a palavra. Profissionalmente nunca foi
(nem iria)
muito longe, devido com certeza à falta de auto-confiança causada pelo seu nome. Trabalhava na recepção das consultas externas de Santa Maria havia já 14 anos. Como de 2 em 2 minutos um novo estranho lhe dirigia a palavra, possuía um calo de dimensão razoável na almofada do polegar da mão esquerda.
O seu infeliz nome também lhe causava dissabores na vida afectiva. Todas as relações duravam sempre menos de duas semanas, uma vez que ao décimo dia
(sem falha)
sofria um ataque de insegurança e fugia nunca mais dizendo uma palavra.

Ela chamava-se Vera Alexandra
(sim, Alexandra era nome de família)
e um nome próprio começado pela letra "V", aliado ao signo de Peixes, fez com que possuísse uma personalidade marcada pelo mau feitio e ruindade requintada. Era secretária numa qualquer empresa nas avenidas novas e usava sempre uma minúscula mochila vermelha às costas. O pai tinha um problema com a bebida
(além de um curioso tique de bater com o dedo mindinho no polegar enquanto lia o jornal)
o que levou a que um dia há 14 anos tivesse partido um copo de vinho na cara da filha impertinente, causando-lhe uma cicatriz de 7 cm na face direita. Esta marca inestética fazia com que poucos homens se interessassem por ela e por isso encarregava-se normalmente sozinha da arte da sedução
(não vamos usar a palavra engate)
com resultados raras vezes positivos.

No dia em que apareceu ao balcão das consultas externas de Santa Maria para marcar uma já demasiado adiada ida ao oftalmologista, ficou edipamente calada a olhar para a mão do funcionário que a atendeu.

Tiveram o primeiro encontro num parque de estacionamento e as primeiras palavras foram ditas à distância de um sorriso desfocado.

Jorge Moniz às 14:21 |