(mordidas mansas)














(por vezes bravas)



morder
 
os legumes
e o cacau,
à beira-mar,
em dias
e dias
de enganos;
afundando
ao vento
cogumelos
duns e doutros;
sem nada
de nada
ao colo
e recortando
fotos
de cães.

sacudindo
dias
de conversas
no camarote.

comendo
causas,
políticas
e erros
de um lado
e do outro;
fixando
de repente
o que tem
a praia:
letras
e girafas.



morder
o mundo

 
todos os minutos
todas as horas
todas as semanas
em francês
e em inglês



morder
os sons

 
em 5 minutos
debaixo de água
conhecendo
lendo
sentindo
e comprando



morder
as imagens

 
pessoais
amadoras
profissionais
em movimento
brevemente
aqui



morder
as palavras

 
sentidas
no escuro
em busca
de tempo



morder
o passado

 
<< hoje



e-mail

This page is powered by Blogger.

Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com















quinta-feira, janeiro 25, 2007


Post chato
Entre nós e o mundo existem duas massas de tecido orgânico branco, chamadas olhos. Para vermos as verdadeiras formas e cores das coisas, precisaríamos de os arrancar, porque não sabemos se o que eles nos transmitem é verdadeiro. Os olhos são sólidos, a informação não entra directamente em nós.
Foi nesta linha que Platão desenvolveu a alegoria da caverna: um grupo de homens preso dentro de uma caverna, com vista apenas para a parede do fundo onde vêm silhuetas distorcidas e monocromáticas do mundo lá fora. Se eles estivessem ali desde nascença, o mundo era assim para eles: sombras, bidimensional. E se um deles fosse libertado, viesse cá fora e voltasse, seria considerado um louco pelos outros, ao ouvirem as suas descrições.
Aliás, isto está tudo no 2001 de Stanley Kubrick ou Arthur C. Clarke. E além da alegoria da caverna, com as cenas de imagens psicadélicas que simbolizam a verdadeira cara do universo, há a teoria da reminiscência, segundo a qual depois de morrermos atingimos a sabedoria total. Ao voltarmos a nascer esquecemos tudo e durante a vida não aprendemos, mas vamos lembrando (daí o ar altivo do feto sabedor que paira sobra a Terra no fim).
Tudo resumido numa frase, as aparências podem iludir. Há um episódio da Twilight Zone sobre isto: um casal que não percebe onde está e descobre que tudo à volta são objectos falsos, até descobrirem que foram raptados por extra-terrestres gigantes e agora são os brinquedos de uma criança, numa espécie de cidade Lego.
Ora quando alguns de nós, tal como a Sofia e o professor Alberto, desconfiamos que não passamos de personagens de um criador, de marionetas, instala-se a dúvida sobre a atitude a tomar: soltamos os braços e deixamo-nos levar pelos movimentos dos cordéis, ou tentamos controlar nós os acontecimentos? E neste segundo caso, o que pensamos fazer de livre vontade não poderá estar afinal também escrito?

Jorge Moniz às 22:35 |